O Santo de Chuteiras Limpas: Uma Auditoria da Carreira de Lionel Messi na Seleção
As cortinas se fecharam oficialmente. Após mais de duas décadas, 190 partidas e uma galeria repleta de todos os troféus possíveis no futebol de seleções, Lionel Andrés Messi se aposentou da Seleção Argentina.
Dos campos de terra batida de Rosario aos confetes dourados de Lusail em dezembro de 2022 e além, Messi carregou as esperanças, ansiedades e neuroses de quarenta e sete milhões de compatriotas. Libertou a Argentina de um jejum de vinte e oito anos sem títulos de peso. Respondeu a cada crítico. Encerrou todas as comparações. Completou o futebol.
Na Bilardo Water, não contestamos sua supremacia. Reverenciamos seu pé esquerdo celestial, seu equilíbrio que desafia as leis da física e seu status como o maior jogador a ter pisado em um gramado.
E, no entanto, ao examinarmos seu legado internacional com atenção minuciosa, surge uma verdade incontornável: Lionel Messi foi simplesmente decente demais.
Em um país cuja alma futebolística foi forjada na pragmática de Osvaldo Zubeldía, Carlos Salvador Bilardo e nas gloriosas artimanhas de 1986 e 1990, Messi deixa a seleção com um detalhe intrigante: uma ausência quase total de catimba e jogo sujo.
Parte I: O Arquiteto Imortal — O Reconhecimento da Grandeza
Antes de auditarmos sua moralidade tática, devemos saudar a magnitude de suas conquistas pela Argentina.
Durante anos, críticos usaram a seleção como arma para desmerecê-lo. Diziam que era catalão, não argentino. Cobravam que não cantava o hino com fervor suficiente. Lamentavam que não gritava com os companheiros como Daniel Passarella nem dava pontapés nos adversários.
Messi respondeu não com discursos, mas com a força da história:
- A Copa América de 2021 no Maracanã: Encerrando a seca de títulos contra o Brasil dentro do Maracanã.
- A Finalíssima de 2022 em Wembley: Um baile tático incontestável sobre os campeões europeus.
- A Copa do Mundo FIFA Catar 2022: Sete jogos de drama puro. Marcou na fase de grupos, oitavas, quartas, semifinal e dois gols na maior final de todos os tempos. Conquistou a Bola de Ouro e ergueu a taça que o consagrou definitivamente.
- Recordes Históricos: Maior artilheiro de seleções sul-americanas de todos os tempos, recordista de jogos pela Argentina e o líder absoluto da era vitoriosa de Lionel Scaloni.
Ele transformou o trauma de três finais consecutivas perdidas (2014, 2015, 2016) em um período de domínio mundial absoluto. Sua grandeza é inegável, grandiosa e eterna.
Parte II: O Déficit Bilardista — A Arte que Ele Jamais Dominou
Passemos agora à auditoria tática.
O bilardismo não é apenas um esquema; é uma filosofia existencial. É a certeza de que o futebol é um jogo de soma zero onde o placar é a única verdade. Vencer por qualquer meio legal — ou habilmente despercebido pela arbitragem — não é um pecado; é um dever moral.
Os Quatro Mandamentos de El Doctor
- Se o adversário entra em campo, é um inimigo que não pode sair com pontos.
- Se a marcação em bola parada exige um beliscão ou um alfinete discreto, aplique-o.
- Se o lateral adversário tem sede aos 39 do primeiro tempo sob o sol de Turim, ofereça o bidón verde.
- Se você está vencendo por 1 a 0 aos 88 minutos, a bola deve sumir na arquibancada e a maca deve entrar duas vezes.
Onde Lionel Messi se encaixa nessa tradição?
1. O Trágico Hábito de Ficar de Pé
Ao longo de toda a sua trajetória internacional, zagueiros o chutaram e puxaram sua camisa. O que Messi fez? Suportou o tranco, manteve-se em pé e tentou concluir a jogada.
Para um purista, isso é nobre. Para um bilardista, é um desastre de gestão.
Se o adversário atinge sua canela dentro da área, você não se equilibra para dar um chute forçado. Você cai no chão. Segura a canela com ambas as mãos. Rola até o árbitro apitar o pênalti por pura aflição. Messi abriu mão de inúmeros pênaltis simplesmente porque seu centro de gravidade recusou a simulação.
2. O Calção Imaculado
Uma vitória clássica sul-americana de mata-mata exige uniforme manchado de grama, lama, suor e lágrimas do adversário.
Messi encerrou a carreira com os calções tão limpos quanto na vitrine. Em mais de 190 jogos internacionais, quantas faltas táticas duras Messi cometeu para matar um contra-ataque? Quantas vezes pisou discretamente na chuteira do goleiro no escanteio? Quantas vezes desamarrou o cadarço do zagueiro rival?
Zero. Ele tratou o futebol como uma galeria de arte e não como uma obra em construção.
3. O Episódio com Van Gaal: Catimba Amadora
Os defensores de Messi citarão o confronto contra a Holanda na Copa de 2022, o Topo Gigio para Louis van Gaal e o famoso "¿Qué mirás, bobo? Andá pa' allá" para Weghorst.
Convenhamos: embora divertido, aquilo foi provocação de recreio de colégio.
Um verdadeiro bilardista não faz Topo Gigio após converter um pênalti. Um bilardista autêntico passaria três semanas estudando os horários de sono de Van Gaal, saberia quais pastilhas ele consumia e faria o ar-condicionado do estádio soprar direto no banco adversário. Messi se irritou; Bilardo teria montado uma operação de guerra psicológica.
Parte III: O Veredito
Lionel Messi se despide da Seleção Argentina como um santo. Entregou ao seu país alegria, genialidade e a terceira estrela no peito. Sofreu, persistiu e conquistou o planeta com conduta irrepreensível.
Celebramos seu legado de todo coração. Agradecemos por cada lampejo de magia.
Apenas lamentamos que, nem uma única vez, aos 89 minutos de um escanteio tenso em Copa do Mundo, ele tenha olhado para a arbitragem, oferecido um misterioso bidón verde ao zagueiro rival e sussurrado: "Beba uma água, campeão. Está muito calor aqui."